O Crime do Padre Amaro, Cenas da Vida Devota – Eça de Queirós

Ao lermos o Crime do padre Amaro dificilmente vamos simpatizar com algum dos seus personagens, mas isso não quer dizer que não dá para desfrutar desta leitura.

Eça de Queirós inaugura o realismo literário português, retratando a vida tal como ela é, sem floreados ou romantismo. E neste novo estilo Eça de Queirós vai tecendo uma crítica bem aguçada à religião católica no Portugal do seu tempo, e às pessoas que a representam.

Eça de Queirós 1873
O escritor Eça de Queirós em Havana em 1873

Sinopse do Crime do padre Amaro

Morre o pároco da Sé de Leiria, e um novo padre chega à cidade. Amaro é um jovem padre que chega a Leiria para substituir o senhor pároco, José Migueis. A sua formação foi-lhe imposta na educação, e a sua vocação não fora tida em conta.

O cónego Dias logo trata de arranjar uma casa para onde possa ir morar o padre Amaro, a casa da sua amiga, a S. Joaneira. Rapidamente o padre sente-se atraído pela filha da S. Joaneira, Amélia, uma jovem devota à religião católica e aos seus preceitos. A atração é correspondida, mas não pode ser demonstrada por causa da batina de Amaro, da imposição de castidade aos padres, e dos preconceitos sociais.

O tom crítico do livro

A forma como as pessoas são retratadas no romance demonstra muito a hipocrisia das acções das pessoas que se diziam católicas e exemplares na sua devoção. De que adianta ir à missa todos os domingos, se depois se tem uma conduta maculada pela maledicência ou pela imoralidade camuflada? Este é o meu pensamento, mas no romance é demonstrado que a atitude da época é precisamente a das aparências (e não será a de hoje também?):

“Ser trabalhador, casto, honrado, justo, verdadeiro, são grandes virtudes; mas para os padres e para a Igreja não contam. Se tu fores um modelo de bondade, mas não fores à missa, não jejuares, não te confessares, não te desbarretares para o senhor cura – és simplesmente um maroto.” (página 232)

A outra das críticas mais evidentes é a imposição do celibato aos padres, e que se questiona ainda hoje:

“…porque proibia ela aos seus sacerdotes, homens vivendo entre homens, a satisfação mais natural, que até têm os animais? (…) Tudo se ilude e se evita, menos o amor! E se ele é fatal, porque impediram então que o padre o sinta, o realize com pureza e dignidade? É melhor talvez que o vá procurar pelas vielas obscenas! – Porque a carne é fraca!” (página 145)

Mas nada justifica as ações erradas que posteriormente Amaro optou por tomar! Há sempre uma escolha, e a escolha de Amaro, principalmente depois das consequências das suas ações, são para mim altamente condenáveis e deploráveis.

Sei que há leitores que não gostam deste livro do Eça por causa dos seus personagens detestáveis e irritantes. Eu também os achei, inclusive odiei o padre Amaro no final do livro, mas ao mesmo tempo gostei bastante da sua narrativa e do seu tom mordaz!

Editora: Círculo de Leitores

Páginas: 460

Créditos de Imagens:

By C.D. Fredricks y Daries (Biblioteca Nacional de Portugal [1]) [Public domain], via Wikimedia Commons